A saúde pública de Mato Grosso em colapso
Entre ordens judiciais ignoradas, hospitais sucateados e denúncias de contratos milionários, o Estado revela prioridades invertidas e expõe a população ao sofrimento diário.
O caso de Adailson Batista da Silva, paciente
com câncer em Sinop, expõe de forma brutal como o Estado de Mato Grosso falhou
em garantir o direito básico à saúde. Três ordens judiciais foram ignoradas, e
um ser humano foi deixado para definhar em uma UPA sem tratamento adequado.
Este episódio não é apenas uma tragédia individual, mas um retrato da
precariedade e da desumanidade que ainda marcam o sistema público de saúde.
Adailson, diagnosticado com mieloma múltiplo,
aguardou quase 30 dias em uma UPA, recebendo apenas medicação paliativa. A
demora comprometeu gravemente suas chances de sobrevivência, levando à perda de
peso, dores intensas e sofrimento contínuo. Se decisões judiciais não são
cumpridas, estamos diante de um colapso institucional. Se vidas são tratadas
como números em planilhas, estamos diante da desumanização da política pública.
A saúde pública deveria ser um direito
universal, mas na prática se tornou uma loteria cruel: quem consegue vaga
sobrevive, quem não consegue é condenado. A judicialização da saúde mostra que
cidadãos precisam recorrer à Justiça para garantir o mínimo, mas mesmo assim
enfrentam a inércia estatal. Muitas vezes, é a mobilização popular que
substitui a ação governamental.
O caso de Sinop não é isolado.
- Hospital Regional de Sorriso:
falta de mais de 140 profissionais, fechamento de leitos e suspensão de
cirurgias. - Fiscalização do TCE-MT:
apontou falhas graves em hospitais regionais de Cáceres, Diamantino,
Matupá e Guarantã do Norte. - Doenças negligenciadas: Mato
Grosso segue como estado hiperendêmico para hanseníase e enfrenta desafios
com tuberculose e dengue.
E há ainda a denúncia feita pelo deputado Max
Russi sobre o Hospital Regional de Cáceres. Ele apontou suspeitas de
favorecimento em contratos milionários com a Organização Social AGIR, além de
reclamações da população sobre a qualidade dos serviços. A denúncia foi
encaminhada ao Ministério Público e à Assembleia Legislativa, mas até agora
pouco se viu de resposta efetiva. O que foi feito de concreto para sanar essas
irregularidades?
Em sete anos de gestão, milhões foram
destinados a obras de lazer em parques urbanos voltados para elites, enquanto
hospitais regionais seguem sucateados e pacientes agonizam em corredores. A
pergunta inevitável é: será que em ano eleitoral o governo vai finalmente agir
ou apenas prometer? Porque prometer é fácil. Difícil é transformar discurso em
atendimento, propaganda em leito, marketing em medicamento.
Cada denúncia reforça a percepção de que o
Estado não cumpre sua função essencial. A desigualdade se amplia: quem tem
recursos busca atendimento privado, os mais pobres ficam reféns de um sistema
precário. A confiança nas instituições se erode, e a cidadania se fragiliza.
Casos como o de Adailson e as falhas em Cáceres se tornam símbolos de desgaste
político e podem influenciar diretamente a opinião pública.
Este episódio nos obriga a perguntar: quantos
Adailsons existem invisíveis, sem repercussão, morrendo em corredores de UPAs e
hospitais? Se a vida de um jovem de 33 anos pode ser negligenciada mesmo diante
de ordens judiciais, que esperança resta para os mais pobres, os mais velhos,
os que não têm voz?
A precariedade da saúde pública em Mato Grosso
não é apenas uma falha administrativa. É uma forma de violência institucional.
E violência contra a vida é a mais grave de todas.
Se em sete anos não houve solução, será que em
ano eleitoral haverá ação — ou apenas mais promessas?




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