Quantas vezes uma mesma obra pode ser lançada antes de ficar pronta?
Após quase oito anos de continuidade administrativa, a população da Região Oeste tem o direito de questionar por que obras ainda retornam ao debate público como promessas, quando o que se espera de um governo são entregas concretas.
Artigo de Opinião
Entre anúncios e entregas: uma reflexão sobre a MT-265 e a gestão pública na Região Oeste
A recente visita do governador Otaviano Pivetta à Região Oeste de Mato Grosso trouxe novamente para o debate o asfaltamento de 34 quilômetros da MT-265, em Porto Esperidião. Trata-se de uma obra importante, necessária e aguardada há décadas pela população. Ninguém discute a relevância do investimento. O que merece reflexão é a forma como essa obra tem reaparecido sucessivamente no discurso político ao longo dos últimos anos.
Os fatos mostram que o Governo do Estado concluiu e entregou aproximadamente 15 quilômetros asfaltados da MT-265, ligando Porto Esperidião à Comunidade Santa Rita. Essa entrega deve ser reconhecida, pois representa um benefício concreto para a população.
Por outro lado, os mesmos registros oficiais mostram que o então governador Mauro Mendes esteve na Região Oeste em 2025 anunciando investimentos, entregando obras e autorizando a licitação de mais 34 quilômetros da MT-265. Agora, poucos meses depois, já sob o comando de Otaviano Pivetta, o Estado retorna à mesma região para tratar novamente desse mesmo trecho, que continua em fase administrativa.
O ponto central desta reflexão não é a obra em si. O ponto central é a lógica da gestão pública.
Após quase oito anos de continuidade administrativa do mesmo grupo político no comando do Estado, é natural que a população espere ver cada vez mais entregas e cada vez menos promessas. Afinal, o tempo de governo já foi suficiente para planejamento, elaboração de projetos, captação de recursos e execução de investimentos.
É justamente por isso que chama atenção o fato de que, após anos de gestão, a principal pauta ainda seja o lançamento de editais, a autorização de licitações e o anúncio de obras futuras.
A comparação é inevitável.
Em aproximadamente sete anos, foram entregues 15 quilômetros de asfalto nesse trecho da MT-265. Agora, faltando menos de um ano para o encerramento do atual ciclo administrativo, anuncia-se a execução de mais 34 quilômetros — mais que o dobro do que foi efetivamente entregue anteriormente.
Não se trata de afirmar que a obra não será realizada. Nem de negar a importância do investimento. Trata-se apenas de uma pergunta legítima que qualquer cidadão tem o direito de fazer:
Se foi necessário quase todo um ciclo de governo para concluir 15 quilômetros, é razoável acreditar que mais 34 quilômetros serão executados com a mesma velocidade e eficiência prometidas agora?
Essa reflexão ganha ainda mais relevância quando observamos que a MT-265 não é um caso isolado. Diversos trechos rodoviários da Região Oeste têm sido objeto de anúncios, autorizações, lançamentos e novas promessas ao longo dos últimos anos.
Naturalmente, toda obra pública precisa passar por etapas burocráticas. Projetos precisam ser elaborados. Licitações precisam ser realizadas. Contratos precisam ser assinados. Isso faz parte da administração pública responsável.
O problema surge quando as etapas burocráticas passam a receber mais destaque político do que os resultados efetivamente entregues à população.
O produtor rural não transporta sua produção por uma licitação.
O estudante não chega mais rápido à escola por causa de um edital.
O comerciante não reduz seus custos porque uma obra foi anunciada.
O benefício só existe quando a estrada está pronta.
Outro aspecto pouco discutido é o custo dessas agendas governamentais. A visita de um governador mobiliza equipes de segurança, assessores, servidores, estrutura de comunicação, veículos oficiais e logística. Tudo isso é financiado pelos contribuintes.
Não há nada de errado em um governador percorrer o interior do Estado. Pelo contrário. Isso é parte de sua obrigação institucional.
Mas é legítimo perguntar qual deve ser a prioridade dessas visitas.
Após quase oito anos de continuidade administrativa, o cidadão espera que o governo vá ao interior principalmente para inaugurar obras concluídas, apresentar resultados concretos e prestar contas daquilo que efetivamente foi entregue.
A população da Região Oeste merece mais do que ouvir que o asfalto virá.
Merece ver as máquinas trabalhando.
Merece acompanhar a execução.
Merece trafegar por estradas concluídas.
Merece resultados.
No final das contas, a história não registra quantas vezes uma obra foi anunciada. A história registra quantas vezes ela foi entregue.
Licitações geram expectativa.
Discursos geram manchetes.
Mas somente obras concluídas geram desenvolvimento.
Por isso, o verdadeiro legado de qualquer governo não está na quantidade de lançamentos realizados, mas na quantidade de promessas transformadas em realidade.
E talvez seja exatamente essa a pergunta que a população da Região Oeste deve fazer neste momento:
Estamos assistindo a uma política de entregas ou a uma política de anúncios?
A resposta não será dada pelos discursos.
Será dada pelas obras que efetivamente ficarem prontas para as próximas gerações.
Antonio Rosa Rodrigues
Graduado e Pós Graduado em Gestão Pública
Ex. Vereador
Ex. secretario Municipal




COMENTÁRIOS