Parque Bilionário, Prioridades Esquecidas?
Enquanto o governo defende o Parque Novo Mato Grosso como símbolo de desenvolvimento, permanecem sem resposta questões sobre moradia, saúde, transparência, concessão privada e a reação de Mauro Mendes à proposta de revisão da obra.
ARTIGO:
Parque
Novo Mato Grosso: Por Que Mauro Mendes Ficou Tão Nervoso?
Quando o senador Wellington Fagundes afirmou
que poderia paralisar as obras do Parque Novo Mato Grosso caso seja eleito
governador, a reação de Mauro Mendes foi imediata e explosiva.
O governador classificou a proposta como
"imbecilidade" e "estupidez".
Mas a pergunta que talvez o cidadão
mato-grossense devesse fazer não é se Wellington está certo ou errado.
A pergunta é outra:
Por que Mauro Mendes ficou tão nervoso?
Porque, olhando para a história recente de
Mato Grosso, existe uma contradição que não pode ser ignorada.
Quando
parar uma obra é certo e quando é errado?
Hoje Mauro afirma que não se pode interromper
o Parque Novo Mato Grosso porque já foram investidos centenas de milhões de
reais.
Mas foi exatamente Mauro Mendes quem decidiu
encerrar definitivamente o projeto do VLT, uma obra que já havia consumido
bilhões de reais dos cofres públicos.
Na época, o argumento era que o VLT havia se
tornado inviável, caro e problemático.
Além disso, o VLT era um sistema de transporte
de maior capacidade, menor emissão de poluentes, maior vida útil e considerado
tecnologicamente superior ao BRT em diversos aspectos.
Ainda assim, o governo decidiu abandoná-lo e
substituí-lo por outro modelo.
Agora, quando surge a possibilidade de revisão
do Parque Novo Mato Grosso, o discurso muda.
A pergunta é inevitável:
Qual é o critério?
Se o argumento é que não se pode desperdiçar
dinheiro público já investido, por que o VLT foi abandonado?
Se o argumento é que obras inviáveis devem ser
revistas, por que não se admite sequer discutir o Parque Novo Mato Grosso?
O cidadão merece uma resposta clara.
Um parque
de quase R$ 1 bilhão era prioridade?
Nenhum recurso público é infinito.
Toda escolha feita por um governo significa
abrir mão de outra escolha.
Quando quase R$ 1 bilhão é direcionado para um
parque, a pergunta não é se lazer é importante.
Lazer é importante.
A pergunta é:
Era a prioridade mais urgente para Mato
Grosso?
Com esse valor, estimativas indicam que seria
possível construir entre 5 mil e 8 mil moradias populares, dependendo do modelo
adotado.
Mas aqui surge uma questão ainda mais
profunda.
Não estamos falando daquela pessoa que se
considera pobre, mas possui casa própria.
Não estamos falando daquele cidadão que
consegue colocar o filho na escola, que eventualmente possui plano de saúde,
que tem carro e que consegue viajar uma vez por ano.
Estamos falando da pobreza real.
Da família que mora de aluguel.
Da família que vive de favor.
Da mãe solo que luta para colocar comida na
mesa.
Do trabalhador que não consegue financiar uma
casa.
Da família que depende exclusivamente do SUS.
Da família que enfrenta dificuldades para
conseguir vaga em creche.
Da família que vive em bairros sem
infraestrutura adequada.
Quantas dessas famílias existem em Mato
Grosso?
Quantas ainda aguardam uma oportunidade de ter
uma moradia totalmente gratuita e definitiva?
Quantas vivem com medo de não conseguir pagar
o aluguel no mês seguinte?
Quando o dinheiro é público, discutir
prioridades não é demagogia.
É obrigação.
Disney para
quem?
Uma das frases mais marcantes de Mauro Mendes
foi a comparação entre o parque e a Disney.
Segundo o governador, existem pessoas que
levam os filhos para a Disney, mas criticam a construção de um parque para o
trabalhador.
A frase tem impacto político.
Mas ela também merece reflexão.
A Disney é frequentada por quem tem condições
de comprar passagens internacionais, hospedagem e ingressos caros.
Mas quem é exatamente o trabalhador citado por
Mauro?
É o trabalhador que tem carro?
É o trabalhador que consegue gastar um dia
inteiro com combustível, alimentação e deslocamento?
Ou estamos falando daquela família que
realmente está na base da pirâmide?
A família que não tem casa própria.
A família que depende exclusivamente do SUS.
A família que enfrenta dificuldades para
conseguir vaga em creche.
A família que pega ônibus todos os dias.
A família que muitas vezes não consegue sequer
visitar um parque distante porque o custo do transporte pesa no orçamento.
O Parque Novo Mato Grosso fica aproximadamente
entre 20 e 25 quilômetros do centro de Cuiabá.
Quantas vezes por ano uma família de baixa
renda conseguirá frequentar esse espaço?
Quantas vezes conseguirá pagar o transporte?
Quantas vezes conseguirá arcar com
alimentação, deslocamento e demais custos?
Essa pergunta ainda não foi respondida.
O parque
será público, mas quem vai administrar?
Outro ponto que merece atenção.
O governo construiu o parque com recursos
públicos.
Mas a gestão futura foi entregue a uma
entidade privada.
Até agora, a população conhece muito pouco
sobre:
- as
projeções de receita do empreendimento; - o
plano de negócios; - os
custos anuais de operação; - as
notas dos concorrentes; - os
critérios detalhados da escolha da operadora.
Sabemos que a SR Participações foi a
selecionada para estruturar a futura gestão.
Sabemos também que seus sócios possuem ligação
com o setor do automobilismo e com importantes grupos empresariais do estado.
Sabemos que a empresa foi criada em 2021.
Sabemos que Fernando Maggi Scheffer e
Vanderlei Reck Junior estavam ligados ao universo do automobilismo e do projeto
do autódromo desde os primeiros anos de desenvolvimento da proposta.
Mas ainda faltam respostas.
Quantas empresas participaram?
Quantas foram habilitadas?
Quantas foram desclassificadas?
Qual foi a nota de cada concorrente?
Por que exatamente a vencedora foi considerada
a melhor opção?
Quem assinou os pareceres técnicos?
Quem assinou os pareceres jurídicos?
Em um empreendimento desse porte, a
transparência deveria ser total.
Se é tão
lucrativo, por que não foi construído pela iniciativa privada?
Essa talvez seja uma das perguntas mais
desconfortáveis de todas.
O governo afirma que o parque vai movimentar a
economia.
Vai gerar turismo.
Vai atrair eventos.
Vai produzir desenvolvimento.
Se isso é verdade, por que a iniciativa
privada não construiu o complexo com recursos próprios?
Por que o Estado assumiu praticamente todo o
investimento?
O contribuinte bancou a construção.
Mas a operação será privada.
O cidadão tem o direito de entender exatamente
como esse modelo funciona.
Porque se o empreendimento possui tamanho
potencial econômico, seria razoável perguntar:
Por que o risco da construção ficou com o
Estado?
E por que a operação ficará nas mãos de uma
entidade privada?
O povo foi
consultado?
Talvez esta seja a pergunta mais importante de
todas.
Antes de investir quase R$ 1 bilhão em um
parque, houve uma ampla consulta pública perguntando à população quais eram
suas prioridades?
O governo ouviu:
- as
famílias sem moradia? - os
pacientes que aguardam procedimentos? - os
pais que enfrentam dificuldades para conseguir vagas escolares? - os
moradores de bairros sem infraestrutura? - os
usuários do SUS?
Porque existe uma diferença fundamental entre
o setor privado e o setor público.
O empresário investe o próprio dinheiro.
O gestor público administra o dinheiro de
todos.
E quando se administra o dinheiro de todos, a
discussão sobre prioridades deixa de ser opcional.
Ela se torna obrigatória.
E se esse
R$ 1 bilhão estivesse na saúde?
Talvez a pergunta mais difícil de todas não
seja sobre o parque.
Talvez seja sobre aquilo que deixou de ser
prioridade.
Quando o Estado decide investir quase R$ 1
bilhão em um empreendimento, inevitavelmente deixa de investir esse mesmo valor
em outras áreas.
Essa não é uma acusação.
É uma realidade matemática.
E então surge uma pergunta desconfortável:
O que R$ 1 bilhão poderia fazer pela saúde dos
mato-grossenses?
Quantos exames poderiam ser realizados?
Quantas cirurgias poderiam ser contratadas?
Quantos leitos hospitalares poderiam ser
abertos?
Quantas UTIs poderiam ser ampliadas?
Quantos pacientes deixariam de esperar meses
ou anos por um procedimento?
Quem vive a realidade do interior de Mato
Grosso conhece um problema que raramente aparece nos discursos políticos.
Quando uma pessoa adoece gravemente em cidades
menores, muitas vezes ela precisa ser transferida para Cuiabá, Rondonópolis,
Sinop ou outras cidades de referência.
O paciente sai de casa.
Sai da sua cidade.
Sai da sua rede de apoio.
E muitas vezes permanece internado sozinho.
A família fica para trás.
Não porque não queira acompanhar.
Mas porque simplesmente não tem condições
financeiras.
Uma passagem custa caro.
A gasolina custa caro.
A hospedagem custa caro.
A alimentação custa caro.
Para muitas famílias, visitar um ente querido
internado em outra região do estado é um luxo impossível.
E então surge uma cena que milhares de
mato-grossenses conhecem.
O paciente permanece dias ou semanas longe de
casa.
Sem visitas.
Sem apoio familiar constante.
Sem a presença diária de filhos, pais, irmãos
ou amigos.
E quando acontece o pior?
Quando a pessoa morre longe de casa?
Muitas famílias enfrentam uma segunda
tragédia.
A dificuldade para trazer o corpo de volta.
Não são raros os casos em que parentes e
amigos organizam rifas, campanhas e vaquinhas para custear:
- o
translado; - o
caixão; - o
funeral; - as
despesas da despedida.
É uma realidade silenciosa.
Uma realidade que dificilmente aparece em
inaugurações e propagandas.
Por isso a discussão não é apenas sobre um
parque.
A discussão é sobre prioridades.
Porque o setor público não trabalha com
desejos ilimitados.
Trabalha com escolhas.
E toda escolha produz consequências.
Quando um governo decide investir quase R$ 1
bilhão em um projeto, o cidadão tem o direito de perguntar:
Quantas cirurgias deixaram de ser realizadas?
Quantos leitos deixaram de ser criados?
Quantos hospitais regionais poderiam ter sido
fortalecidos?
Quantas transferências para cidades distantes
poderiam ter sido evitadas?
Quantas famílias poderiam ter permanecido
próximas de seus entes queridos durante um tratamento?
Defender a saúde não significa ser contra o
lazer.
Assim como defender o lazer não significa ser
contra a saúde.
Mas quando os recursos são públicos, a
população tem o direito de questionar qual deveria ser a prioridade.
E talvez a pergunta mais humana de todas seja
esta:
Para a mãe que espera uma cirurgia do filho.
Para o idoso que aguarda um exame.
Para a família que vive meses na fila de um
procedimento.
Para quem está internado longe de casa.
O que parece mais urgente?
Um parque de quase R$ 1 bilhão?
Ou a redução do sofrimento de quem ainda
espera atendimento?
O
Déficit Habitacional de Mato Grosso e a Pergunta Que Não Quer Calar
Talvez nenhum dado seja mais impactante do que
este.
Segundo levantamento baseado nos estudos da
Fundação João Pinheiro, Mato Grosso possui um déficit habitacional de
aproximadamente 120.207 moradias. Isso significa que mais de 120 mil
famílias mato-grossenses ainda enfrentam algum tipo de problema habitacional
grave.
Estamos falando de famílias que:
- vivem
pagando aluguel; - comprometem
grande parte da renda para não ficar sem teto; - moram
em casas precárias; - dividem
a mesma residência com outras famílias; - aguardam
uma oportunidade de conquistar uma moradia digna.
O próprio estudo mostra que quase 49 mil
famílias vivem sob o peso do aluguel urbano excessivo e outras 48 mil residem
em habitações consideradas precárias.
Diante desses números, surge uma pergunta
inevitável:
Qual era a prioridade mais urgente para Mato
Grosso?
Quantas
casas poderiam ser construídas?
Se utilizarmos uma estimativa conservadora de
R$ 125 mil por unidade habitacional popular totalmente custeada pelo poder
público, um investimento de R$ 1 bilhão permitiria construir aproximadamente:
8.000 moradias.
O número impressiona.
Mas o mais impressionante é perceber o que ele
representa.
Seriam cerca de:
- 8 mil
famílias saindo do aluguel; - 8 mil
famílias deixando áreas precárias; - 8 mil
famílias conquistando patrimônio próprio; - 8 mil
famílias ganhando estabilidade para construir uma nova vida.
Mesmo assim, o déficit habitacional de Mato
Grosso ainda permaneceria superior a 112 mil moradias.
Ou seja:
O problema é tão grande que mesmo um
investimento bilionário resolveria apenas parte dele.
E talvez justamente por isso a discussão seja
tão importante.
O que vale
mais para quem não tem nada?
Quando o debate ocorre nas redes sociais ou
nos gabinetes, muitas vezes ele é feito por pessoas que já possuem casa
própria.
Mas e quem não possui?
O que pensa a família que:
- mora
de aluguel; - divide
quarto com parentes; - vive
em imóvel improvisado; - depende
exclusivamente do SUS; - enfrenta
dificuldades para conseguir vaga em creche; - luta
diariamente para colocar comida na mesa?
Para essa família, qual é a prioridade?
Um parque?
Ou uma casa?
Um autódromo?
Ou a segurança de saber que não haverá aluguel
para pagar no próximo mês?
Um centro de convenções?
Ou a tranquilidade de possuir um endereço
próprio?
Não existe resposta única.
Mas existe uma pergunta legítima.
E ela precisa ser feita.
O Estado
Existe Para Escolher Prioridades
Nenhum governo consegue fazer tudo ao mesmo
tempo.
Por isso governar é escolher.
Cada real aplicado em uma área deixa de ser
aplicado em outra.
Isso não significa que lazer seja irrelevante.
Não significa que cultura seja irrelevante.
Não significa que turismo seja irrelevante.
Mas significa que o cidadão tem o direito de
perguntar:
Por que um parque de quase R$ 1 bilhão foi
considerado prioridade diante de um déficit habitacional superior a 120 mil
moradias?
A Pergunta
Final
Talvez o verdadeiro debate não seja sobre ser
contra ou a favor do Parque Novo Mato Grosso.
Talvez a discussão seja muito mais profunda.
Porque quando falamos de dinheiro público, não
estamos discutindo apenas obras.
Estamos discutindo escolhas.
Estamos discutindo prioridades.
Estamos discutindo quem será atendido
primeiro.
E diante de um déficit superior a 120 mil
moradias, filas na saúde, dificuldades na educação e inúmeras demandas sociais
ainda existentes, uma pergunta continua ecoando:
Se você fosse o responsável por decidir onde
investir R$ 1 bilhão do dinheiro dos mato-grossenses, qual seria sua
prioridade?
A pergunta
que continua sem resposta
Talvez a discussão não seja sobre ser contra
ou a favor do parque.
Talvez a pergunta correta seja:
Por que um governo que defendeu a interrupção
do VLT considera inadmissível discutir a interrupção do Parque Novo Mato
Grosso?
E mais:
Por que um projeto tratado como símbolo do
futuro de Mato Grosso ainda não apresentou de forma amplamente acessível todos
os estudos econômicos, projeções de receita, critérios de escolha da gestora,
notas dos concorrentes e indicadores concretos de retorno social?
Até que essas respostas apareçam, o debate
continuará aberto.
E continuará existindo uma pergunta que muitos
mato-grossenses começam a fazer:
Por que Mauro Mendes ficou tão nervoso?
Autor:
Antonio Rosa Rodigues
Graduado e Pós Graduado em Administração Pública




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