Seja bem-vindo
Cuiabá,25/06/2026

  • A +
  • A -
Publicidade

Ferrovia de Mato Grosso: uma obra coletiva, disputada e sem dono único

Entre decisões políticas, mudanças constitucionais e disputas de protagonismo, a história da ferrovia revela que nenhum ator construiu sozinho o maior projeto logístico do estado


Ferrovia de Mato Grosso: uma obra coletiva, disputada e sem dono único

FERROVIA DE MATO GROSSO: UMA OBRA QUE NÃO TEM DONO.

Por Antonio Rosa Rodrigues - Toninho Borá 
Jornalista e Analista Politico 

Quando a política disputa os holofotes, a história exige memória.


A inauguração do primeiro trecho da Ferrovia Estadual de Mato Grosso representa um dos momentos mais importantes da história recente do estado. Trata-se de uma obra capaz de transformar a logística, reduzir custos, ampliar a competitividade do agronegócio e impulsionar o desenvolvimento econômico de Mato Grosso pelas próximas décadas.

Mas toda grande obra possui uma história. E nenhuma história começa no dia da inauguração.

A ferrovia não nasceu quando o primeiro trilho foi assentado. Não nasceu quando as máquinas chegaram ao canteiro de obras. Não nasceu quando as autoridades subiram ao palco para celebrar sua entrega.

A ferrovia começou muito antes.

Durante décadas, Mato Grosso enfrentou um dos maiores paradoxos econômicos do Brasil. Produzia cada vez mais, liderava a produção nacional de grãos, carne e fibras, mas continuava dependente quase exclusivamente do transporte rodoviário para escoar sua riqueza. Enquanto a produção crescia, os custos logísticos também aumentavam, reduzindo a competitividade do estado.

Foi nesse cenário que nasceu o sonho da integração ferroviária.

Empresários, produtores rurais, entidades do setor produtivo, técnicos, engenheiros e lideranças políticas passaram anos defendendo a necessidade de ampliar a malha ferroviária em Mato Grosso. O debate atravessou governos, legislaturas e diferentes correntes políticas.

Entre os defensores históricos da pauta ferroviária está o senador Wellington Fagundes, que ao longo de diversos mandatos atuou em Brasília defendendo investimentos em infraestrutura logística para Mato Grosso. Durante anos participou de audiências, debates e articulações envolvendo projetos como a Ferronorte, a Ferrogrão e outros corredores estratégicos para o estado. Independentemente de posicionamentos políticos, é impossível contar a história da expansão ferroviária mato-grossense sem reconhecer sua atuação constante no Congresso Nacional.

Outro personagem importante dessa trajetória foi Tarcísio de Freitas. Quando ocupou o Ministério da Infraestrutura, ajudou a construir um novo ambiente regulatório para o setor ferroviário brasileiro. Sua defesa do modelo de autorizações ferroviárias abriu espaço para que estados passassem a desenvolver projetos próprios, reduzindo a dependência exclusiva das concessões tradicionais da União.

Também é impossível ignorar o papel do então presidente Jair Bolsonaro. Foi durante seu governo que a pauta da infraestrutura ferroviária ganhou impulso nacional e recebeu prioridade dentro da estratégia logística voltada ao agronegócio brasileiro. Embora a ferrovia estadual mato-grossense seja um projeto do Governo de Mato Grosso, o ambiente político e regulatório criado naquele período contribuiu para sua viabilização.

No âmbito estadual, o então governador Mauro Mendes assumiu o protagonismo da construção institucional do projeto. Sua gestão transformou uma oportunidade em política pública, encaminhando as mudanças necessárias, articulando investidores e criando as condições para que a obra deixasse de ser um sonho e passasse a ser uma realidade.

Mas existe um capítulo dessa história que muitas vezes aparece apenas como nota de rodapé, quando na verdade deveria ocupar posição central.

A Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

Em 2020, os deputados estaduais aprovaram a Emenda Constitucional nº 93, alterando a Constituição Estadual e permitindo que Mato Grosso adotasse um novo modelo para implantação de ferrovias.

Na época, a Assembleia era presidida por Eduardo Botelho, tendo Max Russi como primeiro-secretário. Mas a mudança não foi obra de um único parlamentar. Ela foi resultado da aprovação dos 24 deputados estaduais que compunham o Parlamento mato-grossense.

Posteriormente, a mesma Assembleia aprovou a Lei Complementar nº 685, que instituiu o Sistema Ferroviário Estadual de Mato Grosso e criou a base jurídica necessária para a implantação do projeto.

Esse é um fato incontestável.

Sem investidores não haveria obra.

Sem Governo não haveria execução.

Mas sem a mudança constitucional e sem a legislação aprovada pela Assembleia Legislativa, dificilmente existiria segurança jurídica para que a ferrovia saísse do papel.

Por isso, a ferrovia não pertence a uma única pessoa.

Ela não pertence a um único governo.

Ela não pertence a um único partido.

Ela não pertence a uma única instituição.

Ela é resultado de uma construção coletiva.

É a soma de decisões tomadas por produtores, empresários, parlamentares federais, deputados estaduais, governadores, ministros, presidentes da República, investidores, engenheiros, técnicos e trabalhadores.

Cada um contribuiu em uma etapa diferente.

Cada um foi importante.

Nenhum deles, sozinho, teria conseguido entregar o resultado que hoje Mato Grosso celebra.

Talvez seja exatamente por isso que a polêmica surgida durante a inauguração do primeiro trecho tenha provocado tanto desconforto.

Após a cerimônia, lideranças da Assembleia Legislativa reclamaram publicamente por não terem tido espaço para discursar durante o evento. Para muitos parlamentares, a exclusão representou uma falta de reconhecimento ao papel desempenhado pelo Legislativo na construção da ferrovia.

As críticas foram direcionadas ao cerimonial da solenidade e, em muitos momentos, atribuídas ao Governo Federal.

A reclamação possui fundamento.

Afinal, quando uma instituição ajuda a construir um dos marcos mais importantes da história econômica de um estado, é natural esperar que ela seja lembrada em um momento tão simbólico.

Mas talvez exista uma reflexão ainda mais profunda.

Se a Assembleia foi ignorada no palco da inauguração, ela já não vinha sendo ignorada antes?

Ao longo dos últimos anos, quantas vezes o papel dos 24 deputados estaduais foi efetivamente reconhecido nos discursos oficiais sobre a ferrovia?

Quantas vezes foi destacado que a obra somente se tornou possível porque houve uma decisão do Parlamento mato-grossense de alterar a Constituição Estadual e criar um novo marco regulatório ferroviário?

Quantas vezes Mauro Mendes dividiu publicamente os méritos da ferrovia com os deputados que aprovaram as mudanças constitucionais necessárias para sua existência?

Quantas vezes Otaviano Pivetta reconheceu de forma clara que a Assembleia Legislativa não foi apenas uma apoiadora do projeto, mas uma das instituições que ajudaram a torná-lo juridicamente possível?

Ao observar a narrativa construída nos últimos anos, percebe-se uma valorização constante e legítima do papel do Governo do Estado, da capacidade de gestão, dos investimentos privados e da eficiência administrativa que permitiu a execução do empreendimento.

Tudo isso merece reconhecimento.

Tudo isso faz parte da história.

Mas a história completa não termina aí.

A mesma honestidade histórica utilizada para reconhecer o trabalho do Executivo deveria servir para reconhecer o papel desempenhado pelo Legislativo.

Porque existe uma diferença entre não permitir um discurso em uma cerimônia e não reconhecer uma contribuição histórica.

A ausência de um discurso dura alguns minutos.

A ausência de reconhecimento pode durar gerações.

E é justamente por isso que o debate sobre a inauguração vai muito além de quem falou ou deixou de falar ao microfone.

O verdadeiro debate é sobre memória.

É sobre reconhecimento.

É sobre justiça histórica.

É sobre compreender que grandes obras públicas não são construídas por heróis solitários.

São construídas por instituições.

São construídas por decisões acumuladas ao longo do tempo.

São construídas por muitas mãos.

Quem idealizou merece reconhecimento.

Quem defendeu merece reconhecimento.

Quem legislou merece reconhecimento.

Quem executou merece reconhecimento.

Quem investiu merece reconhecimento.

Quem trabalhou na obra merece reconhecimento.

A Ferrovia Estadual de Mato Grosso é grande demais para caber no currículo de uma única autoridade ou de um único grupo político.

Ela pertence à história de Mato Grosso.

E a história, quando contada de forma justa, não escolhe seus protagonistas.

Ela reconhece todos eles.

Porque sem o último passo a ferrovia não chegaria até aqui.

Mas sem o primeiro, ela jamais teria saído do lugar.




COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.