Livros de R$ 800, suspeita de rombo milionário e o silêncio das instituições colocam educação de MT no centro do debate político
Prefeito expõe suspeita de desvio milionário em Cuiabá, e caso levanta questionamentos sobre fiscalização, indicações políticas e contratos da educação em Mato Grosso.
A denúncia feita pelo prefeito de Cuiabá, Abilio
Brunini, sobre um possível rombo superior a R$ 80 milhões dentro da Secretaria
Municipal de Educação transformou uma crise administrativa em um terremoto
político com potencial de ultrapassar os limites da Capital e atingir
diretamente o debate sobre fiscalização, controle e responsabilidade pública em
Mato Grosso.
O motivo vai além dos números milionários.
Pela primeira vez desde o início da atual
gestão, a principal crise política enfrentada por Abilio não nasce da herança
deixada pela administração anterior, mas sim dentro da própria estrutura
montada pelo atual governo municipal.
E justamente em uma área considerada uma das
mais sensíveis da máquina pública: a educação.
A diferença é que, desta vez, foi o próprio
prefeito quem decidiu expor o caso publicamente.
Num ambiente político historicamente marcado
por silêncio institucional, acordos internos e blindagem de aliados, a atitude
chamou atenção.
Afinal, quantos gestores denunciariam
suspeitas milionárias dentro da própria gestão?
“Como um
livro didático pode custar R$ 800 enquanto escolas ainda enfrentam falta de
estrutura básica?”
A frase passou a ecoar nos bastidores
políticos de Cuiabá após Abilio revelar que auditorias internas encontraram
materiais didáticos adquiridos por aproximadamente R$ 800 a unidade.
O valor causou espanto imediato.
Em uma rede pública que ainda convive com
cobranças por infraestrutura, climatização, manutenção e falta de materiais
básicos em diversas unidades escolares, a pergunta se tornou inevitável:
Como contratos dessa magnitude passaram pelos
setores técnicos sem gerar alertas imediatos?
Segundo informações divulgadas pela própria
prefeitura, uma compra estimada em cerca de R$ 20 milhões já teria sido paga
antes da identificação das suspeitas.
Outro detalhe que aumentou ainda mais o
desconforto político foi a revelação de que parte dos conteúdos adquiridos
poderia ter sido produzida com auxílio de inteligência artificial, sem
justificativas técnicas claras para os valores elevados cobrados nos contratos.
A combinação entre preços considerados
incompatíveis com o mercado e suspeitas envolvendo materiais pedagógicos abriu
uma crise política difícil de controlar.
E imediatamente outro nome passou a ocupar o
centro das atenções: o do ex-secretário municipal de Educação, Amauri Monge
Fernandes.
O passado
que agora volta ao debate
Amauri Monge não era um desconhecido quando
assumiu a Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá.
Antes de chegar à Capital mato-grossense, ele
ocupava cargo estratégico dentro da Secretaria de Estado de Educação de Mato
Grosso, atuando como secretário-adjunto executivo ao lado do secretário
estadual Alan Porto.
Na prática, Amauri integrava um dos principais
núcleos administrativos da educação estadual.
Mas o que agora começa a gerar questionamentos
mais profundos é outro detalhe do currículo do ex-secretário.
Antes de atuar em Mato Grosso, Amauri teve
passagem pelo Paraná, onde trabalhou no Consórcio de Desenvolvimento e Inovação
do Norte do Paraná (Codinorp).
E foi justamente naquele período que seu nome
apareceu em investigações conduzidas pelo Ministério Público do Paraná.
Em 2022, a Justiça do Paraná chegou a
determinar o bloqueio de aproximadamente R$ 919 mil em bens ligados a Amauri
dentro de uma ação civil pública que investigava supostas irregularidades em
contratos e compras de materiais didáticos.
Posteriormente, o Tribunal de Justiça do
Paraná suspendeu o bloqueio patrimonial, e até hoje não existe condenação
definitiva contra o ex-secretário.
Mas o fato político permanece.
E ele levanta perguntas inevitáveis.
O cargo
estratégico que Amauri ocupava na Seduc-MT
Amauri não ocupava uma função secundária no
Estado.
Como secretário-adjunto executivo da Seduc-MT,
ele integrava o núcleo administrativo e operacional da educação estadual,
participando da coordenação institucional da pasta, articulação administrativa,
representação oficial da secretaria e acompanhamento de programas estratégicos.
Embora não exista documento público apontando
que ele era o responsável direto pelo setor de compras da Seduc, o cargo
ocupado por Amauri era considerado um dos mais influentes da estrutura
administrativa da educação estadual.
Na prática, isso significa que ele fazia parte
do núcleo central de decisões da pasta.
E justamente aí nasce um dos questionamentos
que agora passam a circular com mais intensidade nos bastidores políticos.
Se
aconteceu em Cuiabá, poderia acontecer também na estrutura estadual?
A pergunta começou a ganhar força após a
revelação das suspeitas envolvendo materiais didáticos milionários na Capital.
Porque, inevitavelmente, o debate ultrapassa
os limites da Prefeitura de Cuiabá e alcança a própria estrutura da educação
estadual.
Se um ex-integrante do núcleo estratégico da
Seduc-MT agora aparece ligado a uma investigação envolvendo contratos da
educação municipal, quais mecanismos de controle existem hoje dentro da
estrutura estadual para evitar situações semelhantes?
funcionam adequadamente?
permanentes?
As perguntas não representam acusações.
Mas também deixaram de ser evitáveis.
O elo
político que agora aumenta a pressão
Outro ponto que passou a chamar atenção
envolve a ligação política de Amauri com o núcleo da educação estadual.
Nos bastidores políticos, Amauri sempre foi
tratado como um nome próximo da estrutura liderada pelo vice-governador Otaviano
Pivetta e por Alan Porto dentro da Seduc.
Além disso, o próprio Abilio confirmou
publicamente que conversou com o governador Mauro Mendes, com Pivetta e com
Alan Porto antes de escolher Amauri para assumir a Educação de Cuiabá.
Na época, a indicação foi apresentada como
técnica.
Agora, diante da crise, os questionamentos
inevitavelmente ganham dimensão política.
conhecimento das autoridades que avalizaram sua permanência em cargos
estratégicos?
O silêncio
das instituições também começa a chamar atenção
Outro ponto que começa a gerar pressão pública
envolve justamente o comportamento dos órgãos de fiscalização.
A denúncia partiu do próprio prefeito da
Capital.
Foi o chefe do Executivo municipal quem
decidiu tornar o caso público.
E justamente por isso começam os
questionamentos.
abrirá investigação própria?
contratos semelhantes?
Porque quando um prefeito afirma publicamente
existir suspeita de um rombo superior a R$ 80 milhões na educação, o episódio
deixa automaticamente de ser apenas político.
Passa a exigir respostas institucionais.
E o silêncio, neste momento, também comunica.
Uma crise
que já ultrapassa Cuiabá
Neste momento, ainda não existem condenações,
denúncias formais ou operações policiais relacionadas ao suposto rombo
investigado pela Prefeitura de Cuiabá.
Mas politicamente o impacto já começou.
Porque o episódio não discute apenas possíveis
irregularidades administrativas.
Ele levanta questionamentos sobre:
brasileira.
Agora, resta saber quem terá coragem de
enfrentar os questionamentos que começam a surgir.
Porque talvez a principal pergunta neste
momento não seja apenas o que aconteceu em Cuiabá.
Mas quantos outros contratos semelhantes podem
existir sem que ninguém tenha coragem de investigar.




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