O legado de concreto imaginário
Entre hospitais pela metade, obras apenas anunciadas e mais de R$ 1 bilhão em pagamentos sem contrato, o ex-secretário tenta vender propaganda pessoal como se fosse transformação histórica da saúde de Mato Grosso.
O legado de concreto imaginário de Gilberto Figueiredo
Por Antonio Rosa Rodrigues - Jornalista, Analista e Critico Politico
Gilberto Figueiredo resolveu escrever um artigo triunfalista sobre sua gestão na Secretaria de Saúde de Mato Grosso. O tom é de quem acredita ter reinventado a saúde pública. Mas quando se olha para os números, os cronogramas e as investigações, o “legado” parece mais uma peça de marketing eleitoral do que uma transformação real. É quase como se tivesse escrito um roteiro de propaganda, ignorando que a realidade insiste em ser menos cinematográfica e mais burocrática.
Foram sete anos e três meses no comando da saúde estadual. Não foi um secretário de passagem rápida. Teve orçamento, estrutura e influência política. Tempo suficiente para responder tanto pelos avanços quanto pelos atrasos, contratações controversas e pagamentos sem cobertura contratual. Transformar isso em uma narrativa de “missão cumprida” é, no mínimo, um exercício de ficção administrativa. Sete anos equivalem a quase dois mandatos completos — tempo suficiente para deixar marcas profundas, mas também para acumular contradições que não cabem em um texto autopromocional.
Dos hospitais citados como símbolos da transformação:
Hospital Central: concluído apenas em dezembro de 2025.
Hospital Alto Tapajós: 96% concluído, previsão de inauguração em 2026.
Juína, Confresa, Tangará da Serra: obras pela metade.
Pontes e Lacerda, Barra do Garças, Várzea Grande: apenas anunciados.
Ou seja: um hospital entregue, outro quase pronto, três pela metade e vários apenas no papel. Uma placa não faz cirurgia, uma maquete não abre UTI. O artigo mistura anúncio com entrega e vende expectativa como se fosse realidade. É como confundir o corte da fita com o atendimento ao paciente.
Entre 2020 e 2025, mais de R$ 1 bilhão pagos por indenizações — serviços sem contrato regular ou após vencimento contratual. Gilberto fala em “transformação administrativa”, mas esquece de explicar como a pasta virou campeã em pagamentos sem licitação. Se era excepcional, por que virou rotina bilionária? A pergunta que fica é: quem fiscalizava, quem autorizava e quem se beneficiava desse modelo? Porque transformar a exceção em regra é, no mínimo, uma forma criativa de governar.
Operação Espelho: denúncias de fraude em contratos médicos durante a pandemia, com 22 pessoas acusadas e R$ 57,5 milhões em reparação pedida.
Operação Panaceia: investigação da Polícia Federal sobre movimentações financeiras incompatíveis, envolvendo Gilberto e familiares. Suspensa por questão de foro, não por inocência comprovada.
Denúncia de Max Russi: edital de R$ 669 milhões para a OS Agir, acusado de ser restritivo e favorecer uma entidade.
Curioso como o artigo autobiográfico fala de “compromisso e dignidade”, mas não reserva uma linha para explicar por que sua gestão virou alvo de CPI, operações policiais e denúncias públicas. É como se a narrativa tivesse sido escrita em um universo paralelo, onde investigações não existem.
O novo Hospital de Várzea Grande é tratado como “concretização de um compromisso pessoal”. Mas não é obra de Gilberto, é obra do Estado, paga pelo contribuinte, atravessa administrações e depende de centenas de técnicos e servidores. Chamar isso de legado pessoal é apropriar-se de dinheiro público como se fosse patrimônio privado.
E mais: o hospital sequer saiu do papel. Foi apenas lançado. Entre projeto, licitação, contratação e início efetivo da obra, deve levar mais de um ano. Isso significa que será outro governo que vai pagar, executar e inaugurar. Gilberto vende como legado algo que ainda é promessa, como se fosse possível inaugurar esperança em vez de concreto. A “concretização” que ele cita é, na prática, apenas uma cerimônia de anúncio. O primeiro paciente que entrar nesse hospital não será atendido sob sua gestão, mas sob a de quem vier depois.
Conclusão
Gilberto tenta vender sete anos de gestão como se fossem uma epopeia sem falhas. Mas o balanço honesto é outro:
Um hospital entregue.
Três pela metade.
Vários apenas anunciados.
Mais de R$ 1 bilhão em pagamentos sem contrato.
Investigações e denúncias que marcaram sua passagem.
Ele escreveu sobre o legado que deseja levar para a campanha, mas esqueceu de escrever sobre a Secretaria que precisa explicar à sociedade. O verdadeiro legado não é o que ele descreve em seu artigo, mas o que ficou registrado em CPIs, operações policiais e obras inacabadas.




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