Pivetta e a conta que não cabe em uma planilha
Depois de quase oito anos do mesmo projeto político, o debate deixa de ser quantas promessas foram cumpridas e passa a ser quais problemas realmente foram resolvidos.
Em ano eleitoral, mais importante do que discutir quantas promessas foram cumpridas é perguntar se os principais problemas de Mato Grosso realmente foram resolvidos.
Por Antonio Rosa Rodrigues - Jornalista, Analista e Crítico Politico
Quarenta e três promessas.
À primeira vista, parece um número suficiente para resumir quatro anos de governo.
Parece uma prestação de contas completa.
Parece responder se uma gestão foi bem-sucedida ou não.
Mas talvez Mato Grosso esteja fazendo a pergunta errada.
Nos últimos dias, ganhou destaque o levantamento do g1 que acompanha compromissos assumidos pelos governadores durante a campanha eleitoral. No caso de Mato Grosso, o monitoramento classificou promessas como cumpridas, parcialmente cumpridas e não cumpridas.
É um trabalho jornalístico relevante, baseado em uma metodologia transparente e que contribui para a fiscalização dos governos.
Mas o próprio levantamento desperta uma reflexão que merece ir além dos percentuais.
Será que um governo pode ser avaliado apenas pela quantidade de promessas monitoradas e cumpridas?
Ou a verdadeira avaliação está nos problemas que a população continua enfrentando todos os dias?
Ao consultar o Plano de Governo registrado na Justiça Eleitoral, percebe-se um documento muito mais amplo, com um conjunto expressivo de ações, metas e diretrizes para praticamente todas as áreas da administração pública. Em um levantamento técnico desse documento, é possível identificar cerca de 146 ações e compromissos, demonstrando que os 43 itens acompanhados representam um recorte metodológico, e não a totalidade do projeto apresentado aos eleitores.
Mas existe uma questão ainda mais importante.
Governos não são eleitos para cumprir listas.
São eleitos para resolver problemas.
Essa talvez seja a maior diferença entre governar para produzir estatísticas e governar para produzir resultados.
Uma planilha pode indicar que determinada meta foi cumprida.
Mas nenhuma planilha consegue esconder um problema que continua fazendo parte da rotina da população.
É por isso que nem todas as promessas possuem o mesmo peso.
Na matemática, cada compromisso vale um.
Na vida real, algumas decisões transformam o futuro de milhões de pessoas.
Outras possuem importância administrativa, mas impacto social muito menor.
É exatamente aí que a política deixa de ser uma discussão sobre números e passa a ser uma discussão sobre prioridades.
O maior exemplo dessa diferença talvez seja o BRT.
Quando o Governo do Estado decidiu substituir definitivamente o VLT, afirmou que o novo modal seria mais rápido, mais barato, mais eficiente e menos complexo de implantar.
Não foi apenas uma decisão administrativa.
Foi uma decisão política.
Uma decisão que justificou o abandono de um projeto e apresentou outro como a solução definitiva para a mobilidade entre Cuiabá e Várzea Grande.
Passados anos, o BRT continua sendo uma das principais cobranças feitas pela população.
Mais do que uma obra em andamento, ele se tornou o símbolo da expectativa criada e da entrega que ainda não correspondeu ao que foi prometido.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outras áreas.
Na saúde, o cidadão não mede um governo pela quantidade de programas anunciados.
Ele mede pelo tempo que espera por uma consulta, um exame ou uma cirurgia.
Na infraestrutura, não mede apenas pelos quilômetros divulgados em coletivas de imprensa.
Mede pela estrada que utiliza todos os dias.
No saneamento, não mede pelo valor investido.
Mede pela água que chega — ou não chega — à sua casa.
É justamente por isso que toda prestação de contas precisa ser acompanhada de outra pergunta.
Quais problemas históricos deixaram de existir ao final do mandato?
Porque resolver problemas sempre foi a razão de existir de qualquer governo.
Agora Mato Grosso volta a viver um processo eleitoral.
E isso muda completamente o contexto desse debate.
Otaviano Pivetta não é apenas o atual governador.
Ele integrou a gestão durante praticamente todo o mandato, participou das decisões estratégicas do governo e agora apresenta seu nome ao eleitorado para dar continuidade ao mesmo projeto administrativo.
É natural, portanto, que o plano de governo de 2022 deixe de ser apenas um documento de campanha e passe a ser um instrumento legítimo de avaliação política.
Quem pede um novo voto também precisa prestar contas do voto que recebeu.
Isso vale para qualquer partido, qualquer governador e qualquer projeto político.
Não se trata apenas de discutir quantas promessas foram cumpridas.
Trata-se de discutir quais problemas foram efetivamente resolvidos.
Porque uma obra anunciada não possui o mesmo valor de uma obra entregue.
Um convênio assinado não possui o mesmo valor de uma política pública concluída.
Um lançamento não possui o mesmo valor de um resultado percebido pela população.
É justamente essa diferença que será analisada pelos eleitores nos próximos meses.
Governos apresentarão seus balanços.
A oposição apresentará suas críticas.
A imprensa continuará produzindo levantamentos.
Tudo isso faz parte da democracia.
Mas existe uma auditoria que nenhum governo consegue controlar.
A auditoria feita pelo cidadão.
É ele quem espera pela cirurgia.
É ele quem enfrenta o trânsito.
É ele quem abre a torneira esperando encontrar água.
É ele quem depende diariamente do transporte público.
É ele quem convive, todos os dias, com as consequências das escolhas feitas pelo poder público.
Porque nenhuma eleição é decidida por uma planilha.
Ela é decidida pela memória de quem viveu o governo.
Por isso, talvez a pergunta que Mato Grosso deva responder em 2026 não seja quantas promessas foram cumpridas.
A verdadeira pergunta é muito mais simples.
Depois de quase oito anos do mesmo projeto político, os principais problemas do Estado diminuíram ou continuam fazendo parte da vida dos mato-grossenses?
É essa resposta — e não apenas qualquer percentual — que definirá o julgamento da história.
Porque promessas ajudam a vencer eleições.
Mas somente resultados sustentam a confiança do eleitor.





COMENTÁRIOS