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Cuiabá,25/07/2026

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Pivetta governa qual Mato Grosso?

Ao negar territórios sob influência de facções, governador confronta uma realidade documentada dentro do próprio estado.


Pivetta governa qual Mato Grosso?

Em que Mato Grosso vive o governador?


Ao negar territórios sob influência de facções, Otaviano Pivetta adota um discurso político que parece distante da realidade conhecida pela população


Em que Mato Grosso vive o governador Otaviano Pivetta? A pergunta é inevitável depois de sua afirmação de que o estado não possui “nenhum território dominado pelo Estado paralelo”. A declaração pode até transmitir autoridade, firmeza e controle, mas também revela uma preocupante distância entre o discurso oficial e a realidade documentada dentro do próprio estado.

Pivetta tem o direito de defender seu governo e destacar o trabalho das forças de segurança. O que não pode é transformar uma questão complexa em uma frase de efeito, como se a simples negação fosse suficiente para apagar a presença e a influência das organizações criminosas em Mato Grosso.

Quando o governador afirma que não existe “nenhum território dominado”, o que ele pretende dizer exatamente? Que a polícia consegue entrar em todos os bairros? Que os serviços públicos continuam funcionando? Ou que nenhuma organização criminosa interfere na rotina das comunidades, disputa áreas, recruta jovens ou impõe medo aos moradores?

A diferença é importante.

Um território não precisa estar cercado por barricadas nem ter agentes públicos expulsos para sofrer influência do crime organizado. O poder criminoso também se manifesta de forma silenciosa, por meio de ameaças, disputas, homicídios e controle de atividades ilegais.

Se Pivetta utiliza uma definição extremamente restrita de domínio, deveria explicá-la. Caso contrário, sua fala soa menos como diagnóstico da segurança pública e mais como tentativa de proteger politicamente a imagem do governo.

Uma realidade que não pode ser ignorada

Um estudo acadêmico sobre os homicídios relacionados às facções em Cáceres oferece um contraponto direto à declaração. A pesquisa, baseada em registros policiais, relatórios de inteligência e análise espacial, identificou uma divisão do espaço urbano entre Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital, além de bairros disputados pelas duas organizações.

Não é necessário aprofundar todos os dados do levantamento para perceber a contradição. Enquanto o governador afirma que não há território dominado, pesquisadores descrevem bairros associados a diferentes grupos criminosos e uma violência organizada territorialmente.

Talvez o governo discorde da palavra “domínio”. É legítimo. Mas, nesse caso, precisa explicar por que considera inadequada a conclusão do estudo e apresentar dados capazes de sustentar sua própria versão.

Negar sem explicar não é enfrentar o problema. É apenas disputar a narrativa.

O estudo não afirma que o Estado desapareceu de Cáceres. Também não diz que todos os moradores dos bairros analisados estejam submetidos diretamente às facções. O que demonstra é a existência de um padrão territorial relacionado à atuação de organizações criminosas.

Isso já deveria ser suficiente para que a fala do governador fosse mais cuidadosa.

O governador conhece o estado que administra?

A pergunta não é se Pivetta mora fisicamente em Mato Grosso. Evidentemente, mora e governa o estado. A questão é saber qual Mato Grosso chega até o gabinete do governador.

Chega o Mato Grosso dos relatórios positivos, das prisões realizadas e das operações divulgadas? Ou também chega o Mato Grosso das famílias que perderam jovens, dos bairros marcados por disputas e das cidades localizadas nas rotas do tráfico?

Governar exige conhecer as duas realidades.

É possível reconhecer o trabalho da polícia e, ao mesmo tempo, admitir que existem áreas sob forte influência criminosa. Uma coisa não anula a outra. Reconhecer o problema não diminui o governo. Ao contrário, demonstra responsabilidade e cria condições para enfrentá-lo.

O discurso escolhido por Pivetta, entretanto, parece eliminar qualquer zona de influência das facções. Sua declaração oferece uma imagem simples e confortável: o Estado controla tudo e não existe poder paralelo em nenhum ponto de Mato Grosso.

Mas será essa a percepção dos moradores das áreas citadas no estudo? Será essa a conclusão dos policiais que investigam homicídios relacionados às disputas entre grupos criminosos? Será essa a realidade das famílias atingidas pela violência?

O governador deveria responder a essas perguntas.

Frase de efeito não substitui transparência

A segurança pública não pode ser conduzida somente por discursos de força. Dizer que criminosos terão de mudar de profissão ou deixar o estado pode gerar repercussão política, mas não esclarece quais políticas estão sendo adotadas para impedir o recrutamento de jovens, desmontar redes financeiras e proteger as comunidades mais vulneráveis.

A sociedade precisa de dados, critérios e transparência.

O governo deveria informar o que entende por território dominado, quais municípios possuem atuação de facções e quais medidas específicas estão sendo tomadas nesses locais. Também deveria explicar por que sua avaliação é tão diferente daquela apresentada pelo estudo sobre Cáceres.

O problema da fala de Pivetta não está apenas no que ele disse, mas na certeza absoluta com que disse.

Ao declarar que não existe “nenhum território dominado”, o governador encerra um debate que deveria abrir. Ele apresenta uma conclusão antes de explicar os critérios e antes de responder às evidências que apontam uma realidade mais complexa.

Talvez Otaviano Pivetta viva no Mato Grosso institucional, onde o Estado continua presente e as forças de segurança mantêm capacidade de ação. Mas existe outro Mato Grosso, vivido diariamente por moradores de bairros atingidos pela violência e registrado por pesquisas que o governo não deveria ignorar.

É sobre esse estado que o governador também precisa falar.
































Porque negar a palavra “domínio” não elimina a influência criminosa. E repetir que o Estado está no controle não é suficiente para convencer quem convive com uma realidade diferente.




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