De primeiro para terceiro: o que aconteceu com Otaviano Pivetta em poucos dias?
Após aparecer numericamente na liderança em uma pesquisa, Otaviano Pivetta surge em terceiro lugar na seguinte. A rapidez da mudança levanta uma pergunta inevitável: o eleitor mudou ou os retratos eleitorais contam histórias diferentes?
Se a virada DE PIVETA, aconteceu, por que desapareceu dias depois?
POR ANTONIO ROSA RODRIGUES - JORNALISTA, CRÍTICO E ANALISTA POLITICO
A pesquisa do MT Dados, coletada entre os dias
15 e 21 de julho, apresentou Otaviano Pivetta numericamente à frente de
Wellington Fagundes: 26% contra 25%. O resultado foi amplamente interpretado
como uma virada na disputa pelo Governo de Mato Grosso, ainda que ambos
permanecessem tecnicamente empatados dentro da margem de erro.
Até aí, trata-se de uma fotografia eleitoral
possível.
O debate, porém, ganha novos contornos quando
se observa a sequência dos acontecimentos.
Poucos dias depois, entre 23 e 27 de julho,
a Percent Brasil voltou às ruas e encontrou um cenário bastante diferente.
Wellington Fagundes apareceu com 28%, Jayme Campos com 20% e
Otaviano Pivetta com 18,7%, ocupando a terceira colocação no principal
cenário estimulado. A pesquisa ouviu 1.200 eleitores presencialmente, com
margem de erro de 2,83 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
A primeira pergunta que surge é inevitável.
Se a pesquisa do MT Dados registrava uma
mudança real do comportamento do eleitor, por que um levantamento realizado
poucos dias depois encontrou um cenário tão diferente?
Mas existe um detalhe ainda mais relevante.
Não houve apenas uma troca entre primeiro e
segundo lugar.
Toda a ordem dos três principais candidatos
foi alterada.
Na pesquisa do MT Dados, Pivetta aparecia
numericamente na liderança, Wellington vinha em seguida e Jayme ocupava a
terceira posição. Dias depois, a Percent Brasil mostrou exatamente outra
configuração: Wellington voltou ao primeiro lugar, Jayme passou para a segunda
colocação e Pivetta caiu para o terceiro lugar.
Essa talvez seja a mudança mais significativa
de toda essa discussão.
Não se trata apenas de perguntar quem lidera.
Trata-se de compreender como um candidato
que aparecia numericamente em primeiro lugar passa, poucos dias depois, para a
terceira colocação que aparecia numericamente em primeiro lugar passa, poucos dias depois, para a terceira colocação, registrando uma diferença de 7,3 pontos percentuais em relação ao percentual encontrado anteriormente.
Naturalmente, pesquisas diferentes podem
produzir resultados diferentes. Metodologias distintas, critérios estatísticos,
distribuição regional da amostra e período de coleta influenciam os resultados.
Isso faz parte da dinâmica dos levantamentos eleitorais.
O que desperta questionamentos é a velocidade
dessa mudança.
Entre uma pesquisa e outra, Mato Grosso não
viveu uma crise política, um escândalo de grandes proporções ou um
acontecimento institucional capaz de justificar, por si só, uma alteração tão
expressiva no comportamento do eleitorado.
Houve, sim, um fato político importante nesse
intervalo: a convenção do PL, realizada em 22 de julho, que oficializou
Wellington Fagundes como candidato ao Governo do Estado.
Ou seja, o principal acontecimento político
ocorrido entre as duas pesquisas aconteceu justamente no campo de Wellington.
Ainda assim, permanece uma pergunta difícil de
ignorar.
Seria suficiente a realização de uma convenção
partidária para explicar que um candidato passasse da liderança para a terceira
colocação em questão de dias?
É justamente nesse ponto que a análise
política precisa ir além da simples leitura dos percentuais.
Pesquisas eleitorais não devem ser
interpretadas isoladamente. Seu verdadeiro valor está na sequência histórica.
Um levantamento mostra uma fotografia. Vários levantamentos, analisados em
conjunto, ajudam a construir um filme.
E é justamente esse filme que merece atenção.
Após a divulgação do MT Dados, novas pesquisas
voltaram a apresentar um cenário semelhante ao que vinha sendo observado
anteriormente, recolocando Wellington Fagundes na liderança e mostrando
novamente Jayme Campos e Otaviano Pivetta disputando as posições seguintes.
Isso não significa afirmar que uma pesquisa
esteja certa e outra errada.
Também não significa desqualificar qualquer
instituto.
Significa apenas reconhecer que uma mudança
tão brusca precisa ser compreendida.
Quando um candidato aparece numericamente em
primeiro lugar em um levantamento e, poucos dias depois, ocupa a terceira
posição em outro, é natural que surjam dúvidas sobre quais fatores explicam
tamanha oscilação.
Mais do que isso, se a virada registrada pelo
MT Dados refletia uma mudança consolidada do eleitorado, seria esperado que a
pesquisa seguinte confirmasse esse movimento ou, ao menos, preservasse parte
dele.
O que se observou foi exatamente o contrário.
Não apenas a liderança voltou a mudar, como
toda a ordem dos três principais candidatos foi reorganizada.
A própria Percent Brasil traz outro elemento
que reforça a necessidade de cautela nas interpretações. Na pesquisa
espontânea, Wellington também aparece na frente, com 13,4%, enquanto
Jayme registra 9,3% e Pivetta 9,1%. Ao mesmo tempo, 61% dos
entrevistados ainda não citaram espontaneamente nenhum candidato, indicando
que uma parcela expressiva do eleitorado continua indefinida.
Por isso, talvez a principal discussão deste
momento eleitoral já não seja descobrir quem venceu a pesquisa da semana.
A verdadeira questão é outra.
O eleitor realmente mudou de opinião em tão
poucos dias ou estamos diante de retratos metodologicamente distintos de um
mesmo momento político?
Enquanto as próximas pesquisas não responderem
essa pergunta, uma conclusão parece prudente.
Lideranças podem oscilar. O que não costuma
oscilar com a mesma velocidade é uma tendência construída ao longo de meses por
diferentes levantamentos. E quando um candidato passa do primeiro para o
terceiro lugar em um intervalo tão curto, a análise exige mais do que números:
exige uma explicação política e metodológica capaz de convencer o leitor, e não
apenas o eleitor.





COMENTÁRIOS