Quem demitiu a aliada ontem pode transformá-la em vice amanhã?
Após anos de confrontos sobre servidores, mulheres e o próprio espaço político de Janaina no governo, a aproximação com Otaviano Pivetta levanta uma pergunta inevitável: mudou o projeto ou apenas a necessidade eleitoral?
Janaina vice de Pivetta: quando a conveniência
eleitoral tenta apagar as contradições.
POR ANTONIO ROSA RODRIGUES - JORNALISTA, ANALISTA E CRÍTICO POLITICO
A possível
indicação da deputada estadual Janaina Riva como candidata a vice-governadora
na chapa de Otaviano Pivetta não seria apenas uma composição eleitoral
surpreendente. Seria, sobretudo, um teste de coerência política.
Nos últimos
dias, Pivetta admitiu publicamente que mantém Janaina em seu radar,
reconhecendo nela uma liderança de importância estratégica. Analistas e
integrantes do grupo governista enxergam vantagens evidentes: ela possui voto,
presença no interior, capilaridade partidária, trânsito entre prefeitos e forte
identificação com segmentos que o atual governador aparentemente ainda não
conseguiu alcançar.
Do ponto de
vista eleitoral, a operação é fácil de compreender.
Do ponto de
vista político, é bem mais difícil de explicar.
Janaina não
seria apenas mais um nome colocado na chapa para preencher uma vaga. Ela
chegaria carregando discursos, enfrentamentos, projetos e posicionamentos que,
em diversos momentos, colidiram diretamente com o governo que Pivetta herdou de
Mauro Mendes e agora representa.
O problema
não está na capacidade política da deputada. Ao contrário: é justamente porque
Janaina construiu identidade própria que essa aproximação parece tão
contraditória.
Uma das
marcas mais consolidadas da atuação de Janaina Riva é a defesa dos servidores
públicos estaduais.
Durante os
governos Mauro Mendes, a deputada cobrou o pagamento da Revisão Geral Anual,
criticou perdas salariais, questionou descontos previdenciários e acusou o
Executivo de não respeitar direitos do funcionalismo. Em janeiro de 2026,
chegou a chamar Mauro Mendes de “caloteiro”, afirmando que o governo acumulava
uma dívida de recomposição inflacionária com os servidores.
Em outro
confronto, Janaina defendeu o fim da cobrança previdenciária de 14% sobre
aposentadorias e pensões e rebateu Mauro Mendes, que classificava propostas
semelhantes como irresponsáveis ou inconstitucionais.
Não se
tratou de uma divergência ocasional.
Foi um
embate prolongado entre duas concepções distintas de Estado.
De um lado,
um governo que priorizou o controle fiscal, limitou recomposições salariais e
tratou reivindicações dos servidores frequentemente como ameaças ao equilíbrio
das contas públicas. Do outro, uma parlamentar que transformou a defesa do
funcionalismo em uma de suas principais bandeiras.
Por isso, a
pergunta é inevitável: Janaina entraria no governo para mudar sua política em
relação aos servidores ou seria obrigada a mudar seu discurso para caber no
governo?
Porque uma
coisa é certa: os servidores saberão distinguir uma aliança administrativa de
uma cerimônia de esquecimento eleitoral.
O mesmo
governo que, durante anos, dizia não possuir espaço fiscal para atender
integralmente o funcionalismo agora parece descobrir que possui espaço político
para acomodar sua mais conhecida defensora.
Talvez seja
uma nova modalidade de revisão: não a Revisão Geral Anual dos salários, mas a revisão
geral eleitoral das convicções.
A segunda
grande bandeira de Janaina é a defesa das mulheres.
Como
procuradora especial da Mulher na Assembleia Legislativa, ela participou de
campanhas, audiências, projetos e mobilizações contra a violência doméstica e o
feminicídio. Também apresentou a Política Estadual Feminicídio Zero e apoiou a
criação de uma CPI para investigar falhas institucionais no enfrentamento à
violência contra as mulheres em Mato Grosso.
Essa
atuação ocorre em um estado que continua apresentando números gravíssimos.
Em 2025,
Mato Grosso registrou 53 feminicídios, aumento de aproximadamente 13% em
relação a 2024, quando ocorreram 47 casos. A taxa estadual chegou a 2,5
feminicídios por 100 mil mulheres, quase o dobro da taxa nacional estimada em
1,4. Em cerca de 80% dos episódios, o autor era parceiro ou ex-parceiro da
vítima.
Não é
possível tratar esses números como simples estatística policial. Eles expõem
falhas na prevenção, no acompanhamento das vítimas, na aplicação de medidas
protetivas e na capacidade do poder público de interromper ciclos de violência
antes que terminem em morte.
É nesse
contexto que uma eventual composição entre Janaina e Pivetta produziria sua
contradição mais sensível.
Em 2021,
Pivetta foi acusado pela então esposa, Viviane Kawamoto, de violência
doméstica. O episódio ganhou repercussão nacional, foi exibido pelo Fantástico
e resultou em indiciamento pela Polícia Civil de Santa Catarina. A Justiça
também concedeu medida protetiva determinando que ele mantivesse distância da
denunciante. Pivetta negou as agressões. Posteriormente, tanto o procedimento
relacionado às denúncias em Mato Grosso quanto o inquérito em Santa Catarina
foram arquivados, sem condenação.
Juridicamente,
o arquivamento deve ser registrado e respeitado.
Politicamente,
porém, o episódio permanece sujeito ao escrutínio público, sobretudo quando se
discute uma chapa que pretende apresentar uma defensora das mulheres como
símbolo de representatividade.
Afinal, em
um estado onde as mulheres enfrentam uma das maiores taxas de feminicídio do
país, a escolha de uma vice não pode ser tratada como simples decoração
feminina na fotografia eleitoral.
Seria até
sarcasticamente curioso: para resolver sua dificuldade de diálogo com as
mulheres, o governo pensa em colocar Janaina na vice — como se
representatividade fosse um tipo de medida protetiva eleitoral capaz de manter
o passado a 500 metros de distância da campanha.
Mas
campanhas não possuem essa distância de segurança.
O passado
sempre encontra o palanque.
Janaina
integrou durante anos a base de sustentação do governo Mauro Mendes. A ruptura
mais visível ocorreu a partir de 2025, quando ela intensificou críticas ao
tratamento dispensado aos servidores, à cobrança previdenciária e às
prioridades financeiras do Estado.
O conflito
ultrapassou o campo administrativo.
Integrantes
do governo passaram a acusá-la de defender propostas irresponsáveis e de mentir
para os servidores. Mauro Mendes, por sua vez, chegou a envolver os pais da
parlamentar em ataques relacionados à corrupção. A relação política tornou-se
marcada por acusações pessoais e por uma hostilidade pública difícil de apagar
em poucos meses.
Agora, o
mesmo grupo que a tratava como ameaça ao equilíbrio fiscal parece enxergá-la
como solução para o desequilíbrio eleitoral.
A
transformação é impressionante.
Quando
Janaina cobrava direitos dos servidores, era apresentada como irresponsável.
Quando passou a ser cogitada para fortalecer a chapa governista, tornou-se
estrategicamente importante.
Não foi a
pauta dela que mudou.
Foi a
necessidade eleitoral do governo.
Mauro
Mendes tentou manter distância da decisão, afirmando que uma eventual aliança
dependeria de Pivetta. Entretanto, outras informações indicam que integrantes
do grupo governista e articuladores políticos trabalham pela aproximação do MDB
com o Palácio Paiaguás.
Parece
haver uma tentativa de transformar antigas agressões políticas em meras
diferenças administrativas. Como se chamar uma parlamentar de mentirosa,
irresponsável ou associá-la publicamente à corrupção familiar fosse apenas uma
pequena discordância sobre o cardápio do almoço.
Na
política, alianças são possíveis.
Mas nem
todas são naturais.
Algumas
precisam de tanta explicação que acabam consumindo mais energia do que os votos
que poderiam produzir.
A relação
de Janaina com Pivetta sempre foi diferente da relação mantida com Mauro
Mendes.
Mesmo
durante os períodos de tensão com o governo, a deputada demonstrou maior
proximidade pessoal e institucional com Pivetta. Quando ele assumia
interinamente o comando do Estado, Janaina frequentemente o acompanhava em
viagens, inaugurações e agendas no interior. Os dois chegaram a trocar elogios
públicos e construíram uma ponte política própria.
Isso ajuda
a explicar por que o nome dela aparece repetidamente como alternativa para
vice.
Desde 2025,
Janaina, contudo, vinha negando essa possibilidade e reafirmando que pretendia
disputar o Senado. Em fevereiro, março, abril e maio de 2026, declarou em
diferentes ocasiões que não havia recebido convite, que não tinha interesse na
vice ou que uma composição seria “difícil, mas não impossível”.
A mudança
gradual de linguagem demonstra que a porta deixou de estar completamente
fechada.
Mas
aproximação pessoal não elimina incompatibilidade programática.
Pivetta não
representa um governo novo. Ele participou da administração Mauro Mendes desde
o início, ajudou a construir suas decisões, integrou suas ações e assumiu o
comando do Estado prometendo continuidade.
Não é
possível responsabilizar Mauro Mendes por todas as políticas impopulares e
apresentar Pivetta como se tivesse acabado de desembarcar no Palácio Paiaguás.
Se Janaina
foi oposição às práticas do governo, foi oposição a uma administração da qual
Pivetta era vice-governador, participante e sucessor.
A tentativa
de separar os dois seria politicamente conveniente, mas historicamente
artificial.
A possível aliança entre Janaina Riva e Otaviano Pivetta esbarra em uma contradição difícil de ignorar. Foi justamente Pivetta quem, segundo o próprio Mauro Mendes, pediu a saída de Luluca Ribeiro, principal indicado político de Janaina no governo, desmontando seu espaço dentro do Executivo. Hoje, o mesmo grupo que retirou sua influência tenta transformá-la em peça estratégica da chapa. Na política, alianças são possíveis, mas apagar a memória dos fatos costuma ser muito mais difícil do que construir um novo discurso eleitoral.
Também é
necessário perguntar qual seria o espaço real de Janaina dentro de uma eventual
administração Pivetta.
Ela teria
autonomia para negociar com os servidores?
Poderia
defender o pagamento das perdas salariais acumuladas?
Teria
liberdade para rever a cobrança previdenciária dos aposentados?
Comandaria
efetivamente as políticas de proteção às mulheres?
Poderia
cobrar publicamente do próprio governo resultados concretos na redução dos
feminicídios?
Ou seria
convocada apenas para emprestar votos, presença feminina, capilaridade no
interior e a força do MDB a um projeto governista que não pretende alterar suas
prioridades?
A
vice-governadoria não pode ser transformada em depósito de bandeiras incômodas.
Janaina
possui posições próprias e uma identidade política que, goste-se ou não delas,
foi construída em confrontos públicos. Aceitar compor a chapa governista sem
compromissos claros poderia fazer com que deixasse de ser vista como
representante dessas causas para se tornar apenas avalista de uma administração
que combateu.
Para
Pivetta, a aliança seria eleitoralmente útil.
Para
Janaina, poderia ter um custo político elevado.
Ela teria
de explicar aos servidores por que se uniu ao governo que acusou de negar seus
direitos. Teria de explicar às mulheres como pretende defender essa pauta
dentro de um projeto cujo principal nome carrega no histórico público um
episódio de violência doméstica que, embora arquivado judicialmente, teve
grande repercussão. E teria de explicar ao próprio eleitorado por que
abandonaria um projeto de Senado para ocupar uma posição secundária em uma
chapa de continuidade.
Na
matemática eleitoral, quase tudo pode ser somado.
Na
política, entretanto, algumas somas produzem subtrações.
Janaina
pode oferecer a Pivetta aquilo que hoje parece faltar ao governador: voto
popular, presença feminina, diálogo com os servidores, capilaridade regional e
uma personalidade política com maior capacidade de comunicação.
Pivetta,
por sua vez, pode oferecer estrutura governamental, tempo de propaganda,
alianças partidárias e uma chapa competitiva.
O problema
é o que cada um teria de abandonar para que essa união acontecesse.
Pivetta
teria de admitir que o governo errou no tratamento dispensado aos servidores e
que precisa rever políticas combatidas por Janaina. Também teria de aceitar que
a pauta feminina não pode ser utilizada apenas como símbolo eleitoral.
Janaina
teria de decidir se suas bandeiras são condições para uma aliança ou apenas
credenciais que podem ser apresentadas e depois guardadas durante a campanha.
Sem
compromissos públicos, a composição pareceria menos um encontro de projetos e
mais um contrato de conveniências.
Por isso,
embora possível sob o ponto de vista partidário, a aliança parece quase
impossível sob o ponto de vista da coerência.
Não porque
Janaina e Pivetta não possam dividir o mesmo palanque.
Na
política, palanques comportam quase tudo.
A
dificuldade será convencer servidores, mulheres e eleitores de que todas as
críticas, acusações, confrontos e diferenças dos últimos anos desapareceram
espontaneamente — justamente no momento em que os votos de Janaina se tornaram
necessários.
Talvez o
governo consiga encontrar uma vaga para Janaina na chapa.
Mais
difícil será encontrar uma vaga para a coerência dentro dela.





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