Uma pesquisa, muitas perguntas: quem está por trás do novo cenário eleitoral em Mato Grosso?
Levantamento de um instituto recém-criado altera o cenário eleitoral, coloca Pivetta à frente de Jaime Campos e desperta questionamentos sobre transparência, experiência e credibilidade.
Uma pesquisa, muitas perguntas.
Por Antonio Rosa Rodrigues - Jornalista, Analista e Crítico Politico
Entre a fotografia eleitoral e a credibilidade do instituto, o que os mato-grossenses precisam saber?
Quando uma pesquisa gera mais perguntas do que respostas.
Pesquisas eleitorais cumprem um papel importante nas democracias. Elas medem o humor do eleitorado, influenciam estratégias de campanha, pautam o debate público e, muitas vezes, moldam a percepção da sociedade sobre quem está crescendo ou perdendo força na disputa.
Justamente por exercerem tamanho impacto, pesquisas precisam inspirar confiança. E confiança não se impõe; ela se constrói por meio da transparência, da experiência e da credibilidade de quem as realiza.
A divulgação da pesquisa registrada no TSE sob o nº MT-04153/2026 trouxe um novo cenário para a disputa pelo Governo de Mato Grosso, apontando um empate técnico entre Wellington Fagundes e Otaviano Pivetta. O resultado chamou atenção não apenas pelos números, mas também por quem realizou o levantamento.
A empresa responsável é a Data Index Pesquisas Ltda., constituída em 28 de abril de 2026. Pouco mais de dois meses depois de sua criação, já realizava uma pesquisa estadual com 1.600 entrevistas, abrangendo governador, senador, deputados federais e estaduais.
Esse fato, por si só, não significa qualquer irregularidade. A legislação eleitoral não exige tempo mínimo de funcionamento para que uma empresa realize pesquisas. Mas exatamente por isso surgem perguntas legítimas que merecem ser feitas.
Como uma empresa recém-criada conseguiu estruturar, em tão pouco tempo, uma operação capaz de executar uma pesquisa estadual dessa dimensão?
Quem compõe sua equipe técnica?
Quantos pesquisadores foram mobilizados em campo?
Qual é o histórico profissional de seus coordenadores?
A empresa possui experiência anterior em levantamentos eleitorais, ainda que por meio de seus profissionais?
Até o momento, não há um histórico público consolidado de pesquisas anteriores realizadas pela Data Index, tampouco um portfólio amplamente conhecido. Também não foram localizados site institucional ou perfis oficiais em redes sociais que apresentem sua trajetória, metodologia ou equipe.
Novamente, nada disso configura irregularidade. Mas transparência sempre fortalece a confiança.
Outro aspecto que desperta curiosidade é a contratação.
A pesquisa foi encomendada pela FPX Business Assessoria e Consultoria Ltda., empresa constituída em 2024, pelo valor de R$ 30 mil, conforme informado no registro do TSE. Até o momento, não há histórico público conhecido de outras pesquisas eleitorais contratadas pela empresa.
Por que uma empresa cuja atividade principal é consultoria empresarial decidiu investir recursos próprios na contratação de uma pesquisa eleitoral estadual?
Foi uma iniciativa destinada ao mercado?
Para clientes privados?
Para consumo interno?
Existe intenção de realizar novas pesquisas ao longo do processo eleitoral?
Essas respostas certamente ajudariam a sociedade a compreender melhor o contexto da contratação.
Outro aspecto que desperta reflexão diz respeito ao valor investido.
Segundo o registro da pesquisa no Tribunal Superior Eleitoral, o levantamento custou R$ 30 mil. Trata-se de um valor significativo e que naturalmente leva a outro questionamento: esse montante permitiria a contratação de institutos com trajetória consolidada, histórico público de pesquisas e atuação reconhecida no mercado?
Se sim, por que a opção foi justamente por uma empresa constituída há pouco mais de dois meses?
Houve algum diferencial técnico, metodológico ou operacional que justificasse essa escolha?
Quais critérios levaram o contratante a selecionar uma empresa recém-criada para realizar uma pesquisa de abrangência estadual?
Essas perguntas não colocam em dúvida a legalidade da contratação, mas procuram compreender quais fatores pesaram na decisão de confiar a uma empresa tão jovem um levantamento com potencial de influenciar o debate político em todo o Estado.
Outro dado chama atenção.
A nota fiscal emitida pela Data Index para essa pesquisa é a de número 1.
Isso significa que esta foi a primeira nota fiscal eletrônica de prestação de serviços emitida pela empresa.
Isso não prova que tenha sido seu primeiro contrato, mas demonstra que a empresa estava iniciando sua atividade operacional justamente quando realizou uma pesquisa de grande repercussão estadual.
É natural, portanto, que o público queira entender como essa estrutura foi organizada em tão curto espaço de tempo.
Há ainda outro elemento relevante.
Nas pesquisas divulgadas anteriormente por institutos que vinham acompanhando a disputa em Mato Grosso, Wellington Fagundes aparecia liderando a corrida eleitoral, enquanto o senador Jaime Campos figurava, em diversos levantamentos, na segunda colocação, à frente de Otaviano Pivetta.
A pesquisa da Data Index apresenta um cenário diferente. Além de indicar um empate técnico entre Wellington Fagundes e Otaviano Pivetta, ela também altera significativamente a configuração da disputa ao posicionar Pivetta à frente de Jaime Campos, que passa a aparecer na terceira colocação.
Mudanças no cenário eleitoral podem acontecer. Pesquisas são retratos de momentos distintos, realizados em períodos diferentes e com metodologias próprias. Divergências entre levantamentos fazem parte do processo democrático e, por si só, não significam que uma pesquisa esteja correta e outra errada.
Mas exatamente quando um levantamento rompe de forma significativa com a tendência observada até então, aumenta ainda mais a importância da transparência metodológica e do escrutínio público.
Quem financiou?
Como foi construída a amostra?
Quais municípios foram efetivamente pesquisados?
Como foram distribuídas as entrevistas?
Como ocorreu a supervisão do trabalho de campo?
Como uma empresa criada há pouco mais de dois meses conseguiu estruturar uma operação estadual dessa magnitude?
E, diante de um investimento de R$ 30 mil, por que a escolha recaiu sobre um instituto recém-constituído, em vez de uma empresa com histórico público consolidado de pesquisas eleitorais?
Esses questionamentos não atacam a pesquisa. Ao contrário. São perguntas legítimas que contribuem para fortalecer sua credibilidade quando respondidas de forma clara, técnica e documentada.
Em uma democracia madura, pesquisas eleitorais não devem ser tratadas como verdades absolutas nem como peças de propaganda. Elas precisam estar abertas ao exame público.
A confiança nasce justamente da disposição de prestar contas.
Por isso, talvez a principal discussão não seja quem aparece em primeiro, segundo ou terceiro lugar.
A discussão mais importante é outra: quanto mais influência uma pesquisa exerce sobre o eleitorado, maior deve ser o compromisso com a transparência, a publicidade de seus métodos, a experiência técnica de seus responsáveis e a construção de credibilidade perante a sociedade.
Questionar não significa desacreditar.
Questionar significa exercer o direito de compreender como informações capazes de influenciar milhões de eleitores são produzidas.
Afinal, pesquisas eleitorais não influenciam apenas campanhas. Elas podem impactar decisões de partidos, estratégias de candidatos, posicionamentos de lideranças políticas, investimentos de campanhas e até mesmo o comportamento do chamado voto útil. Quanto maior esse potencial de influência, maior também deve ser o compromisso com a transparência e com a confiança pública.
No fim, uma pesquisa pode mudar o cenário eleitoral.
Mas a transparência é o que garante que a sociedade confie nesse cenário.
E talvez esta seja a principal reflexão que a divulgação da pesquisa MT-04153/2026 deixa para Mato Grosso: mais importante do que discutir quem ganhou ou quem perdeu alguns pontos percentuais é assegurar que toda pesquisa capaz de influenciar o debate público esteja cercada do máximo de transparência possível.
A democracia não se fortalece quando as perguntas são evitadas.
Ela se fortalece justamente quando todas as perguntas legítimas podem ser feitas — e respondidas com clareza.




COMENTÁRIOS