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Cuiabá,17/07/2026

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Pivetta defende Padeiro, Mauro prometeu o BRT e Cuiabá continua esperando

Enquanto Mauro Mendes vendeu o BRT como solução rápida e Otaviano Pivetta defende Marcelo Padeiro, a população segue sem respostas para os atrasos, ampliando a distância.


Pivetta defende Padeiro, Mauro prometeu o BRT e Cuiabá continua esperando

O BRT do faz de conta: quando um governo troca obras por discursos e promessas por desculpas


Por Antonio Rosa Rodrigues – Jornalista, Analista e Crítico Político


Quando o então governador Mauro Mendes anunciou o fim do VLT e a adoção do BRT como solução para a mobilidade urbana da Baixada Cuiabana, o discurso era sedutor. A promessa era de um sistema mais moderno, mais barato, mais eficiente e, principalmente, muito mais rápido de ser entregue. A narrativa oficial vendia a ideia de que Mato Grosso finalmente deixaria para trás uma obra problemática para iniciar um novo capítulo na história do transporte coletivo.

Passados vários anos, a realidade desmontou completamente esse discurso.

O que deveria ser símbolo de eficiência tornou-se um dos maiores retratos do improviso administrativo. O governo prometeu rapidez, mas entregou atrasos. Prometeu planejamento, mas colecionou aditivos contratuais. Prometeu responsabilidade com o dinheiro público, mas até hoje a população convive com avenidas destruídas, congestionamentos intermináveis, prejuízos ao comércio e um sistema de transporte que continua sem oferecer qualquer benefício concreto aos cidadãos.

A pergunta que o cidadão faz é simples: afinal, onde está o BRT que foi vendido como a grande solução para Mato Grosso?

A resposta continua sendo a mesma de anos atrás: nas promessas do governo.

Desde que o modal foi anunciado, o cronograma passou por sucessivas mudanças. Primeiro falaram em conclusão em 2022. Depois o prazo mudou para 2025. Em seguida, foi empurrado para junho de 2026. Agora, novo aditivo contratual estabelece a conclusão das obras apenas para novembro de 2026, enquanto o contrato permanece vigente até fevereiro de 2027.

A cada novo atraso, muda-se apenas a data. O discurso permanece exatamente igual.

O mais grave é que não se trata de uma obra herdada. Não se trata de um projeto imposto por gestões anteriores. O BRT foi uma escolha política do próprio governo Mauro Mendes e de seu vice, hoje governador, Otaviano Pivetta.

Foram eles que decidiram interromper definitivamente o VLT.

Foram eles que garantiram que o BRT seria mais eficiente.

Foram eles que convenceram a população de que essa troca resolveria rapidamente o problema da mobilidade urbana.

Se a escolha foi deles, a responsabilidade também é.

Não há mais espaço para transferir culpa para governos passados ou insistir em comparar permanentemente o BRT com o VLT. O debate sobre qual modal era melhor ficou para trás no momento em que o governo decidiu abandonar um e assumir integralmente o outro.

Hoje, a única pergunta que importa é: por que o BRT, escolhido pelo próprio governo, continua sem ser entregue?

Essa resposta ninguém consegue oferecer.

A recente convocação do secretário de Infraestrutura pela Assembleia Legislativa apenas reforçou essa sensação de improviso. Esperava-se que Marcelo Padeiro apresentasse cronogramas, metas, justificativas técnicas e explicações objetivas para os sucessivos atrasos.

Mas o que a população assistiu foi exatamente o contrário.

O secretário evitou responder às principais perguntas, voltou a falar repetidamente do VLT — um projeto encerrado pelo próprio governo — e terminou sua participação sem esclarecer por que o BRT continua atrasado.

Quando um secretário comparece ao Parlamento para prestar contas e sai sem responder à principal pergunta que motivou sua convocação, o problema deixa de ser apenas administrativo. Passa a ser um problema político e institucional.

Pior ainda foi assistir ao governador Otaviano Pivetta abandonar completamente a discussão sobre os atrasos para partir ao ataque contra o deputado Lúdio Cabral.

Em vez de responder por que o BRT continua sem funcionar, preferiu transformar um problema de gestão em disputa política.

Governar exige responsabilidade.

Governar exige transparência.

Governar exige capacidade de responder perguntas incômodas.

Atacar quem fiscaliza não constrói um único quilômetro de corredor exclusivo, não instala uma única estação, não coloca um único ônibus em circulação e não diminui um minuto sequer do sofrimento diário enfrentado pelos milhares de trabalhadores que dependem do transporte coletivo.

O comportamento do governo revela uma inversão preocupante de prioridades.

Quando faltam respostas, aparecem ataques.

Quando faltam resultados, surgem discursos.

Quando faltam entregas, multiplicam-se inaugurações simbólicas, ordens de serviço, placas, anúncios e cerimônias.

A propaganda tornou-se mais importante do que a execução.

O marketing passou a ocupar o espaço que deveria ser preenchido pelas obras concluídas.

Enquanto isso, Mato Grosso convive com um cenário alarmante revelado pelo próprio Tribunal de Contas do Estado.

Segundo o TCE-MT, aproximadamente 2,8 mil obras públicas encontram-se paralisadas, representando cerca de R$ 7,1 bilhões em investimentos. Apenas nos últimos noventa dias, cerca de 1,8 mil obras sofreram paralisação. Infraestrutura e transporte concentram a maior parte desses empreendimentos interrompidos.

Não se trata, portanto, de um problema isolado do BRT.

O BRT é apenas o caso mais visível de um modelo de gestão que parece dominar a arte de lançar obras, mas demonstra enorme dificuldade em concluí-las.

O presidente do Tribunal de Contas, Sérgio Ricardo, foi direto ao apontar que boa parte desse cenário decorre da ausência de planejamento adequado no Plano Plurianual.

Planejamento não é detalhe burocrático.

Planejamento é exatamente aquilo que impede que bilhões de reais permaneçam enterrados em obras inacabadas.

Planejamento é aquilo que evita desperdício de dinheiro público.

Planejamento é aquilo que separa governos eficientes de governos movidos por improvisação.

E é justamente nesse ponto que o discurso oficial entra em conflito com a realidade.

Por onde passa, o governador Otaviano Pivetta anuncia novos investimentos, novos convênios, novas ordens de serviço e novos pacotes de obras.

O problema não está em anunciar.

Governar também exige anunciar.

O problema surge quando os anúncios se acumulam em velocidade muito superior às entregas.

Não existe mérito em inaugurar promessas.

Não existe eficiência em lançar obras enquanto centenas ou milhares das anteriores permanecem paradas.

Não existe gestão pública de qualidade baseada apenas em coletivas de imprensa, vídeos institucionais e agendas políticas pelo interior.

O cidadão não vive de anúncios.

O comerciante que perdeu clientes por causa das obras intermináveis não vive de discursos.

O trabalhador preso diariamente nos congestionamentos não chega mais cedo ao trabalho porque o governo gravou mais um vídeo.

A população não utiliza propaganda como meio de transporte.

Utiliza obras prontas.

Utiliza corredores concluídos.

Utiliza ônibus circulando.

É exatamente por isso que o BRT deixou de ser apenas uma obra pública.

Hoje, tornou-se um símbolo.

Símbolo da distância entre o discurso e a realidade.

Símbolo da diferença entre aquilo que foi prometido e aquilo que efetivamente foi entregue.

Símbolo de um governo que construiu uma imagem baseada no chamado "fazimento", mas que, diante da principal obra de mobilidade urbana do Estado, ainda não conseguiu demonstrar a mesma eficiência que proclama em seus discursos.

O tempo da propaganda já passou.

O tempo das justificativas também.

O cidadão não precisa de novas datas.

Precisa de resultados.

Porque, quando um governo troca planejamento por marketing, prestação de contas por ataques políticos e entregas por sucessivos adiamentos, deixa de administrar obras para administrar expectativas.

E expectativa não transporta ninguém.

Enquanto o BRT continuar sendo apenas uma promessa constantemente adiada, o governo continuará carregando um peso político que nenhum discurso conseguirá esconder: o de ter escolhido o modal, assumido a responsabilidade pela obra e, ainda assim, não conseguido entregá-la à população.

Assim, o BRT não é apenas uma obra atrasada: é o retrato de um governo que multiplica promessas, mas deixa Mato Grosso atolado em milhares de obras inacabadas. O “governo do fazimento” se revela, na prática, um governo do faz de conta.




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