Quem tem algo a dizer, por que escolhe o silêncio?
Convocado para explicar o BRT, o secretário falou sobre VLT, Emendas Pix, orçamento secreto e respeito ao dinheiro público. Depois afirmou que sabia de mais coisas, mas preferiu não dizer.
Quando o silêncio substitui a prestação de contas.
Ao citar o VLT, Emendas Pix, orçamento secreto e respeito ao dinheiro público, o secretário ampliou o debate. Mas a principal pergunta permaneceu sem resposta: por que não dizer tudo justamente quando foi convocado para esclarecer?
Por Antonio Rosa Rodrigues – Jornalista, Analista e Crítico Político
Há momentos em que uma autoridade pública fala muito. E, paradoxalmente, explica muito pouco.
A audiência da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, convocada para discutir as obras do BRT, produziu uma das cenas políticas mais emblemáticas dos últimos anos. Não apenas pelo fato de o secretário de Estado de Infraestrutura, Marcelo de Oliveira, deixar a sessão antes do encerramento, mas principalmente pelas palavras que escolheu dizer antes de sair.
"Tem coisa que eu quero falar. Eu quero falar, mas eu não vou falar."
Essa talvez tenha sido a frase mais importante de toda a audiência.
Porque ela não encerra um debate. Ela inaugura dezenas de perguntas.
O secretário não afirmou estar impedido por decisão judicial. Não disse que estava protegido por sigilo legal. Não alegou que responder poderia comprometer uma investigação em andamento.
Ele afirmou que queria falar, mas escolheu não falar.
E essa diferença é enorme.
Marcelo de Oliveira foi convocado pela Assembleia Legislativa não para participar de um debate político, nem para fazer uma análise sobre os problemas históricos da infraestrutura brasileira. Foi convocado para cumprir um dever institucional: prestar esclarecimentos sobre uma das maiores e mais caras obras de mobilidade urbana atualmente em execução em Mato Grosso.
Era exatamente aquele o momento de responder.
Era exatamente aquele o espaço para esclarecer.
Era exatamente aquela a finalidade da convocação.
No entanto, antes de deixar a audiência, o secretário ampliou o debate para temas extremamente sensíveis.
Falou sobre o VLT permanecer aproximadamente dez anos parado.
Criticou as chamadas Emendas Pix.
Questionou o orçamento secreto.
Fez referência à Operação Pantaneira.
Afirmou que o dinheiro público precisa ser respeitado.
E declarou que havia fatos que preferia não revelar.
É justamente aí que nasce a maior contradição da audiência.
Se essas questões são tão relevantes, por que não apresentá-las oficialmente ao Parlamento?
Se existem informações capazes de explicar sua indignação, por que não compartilhá-las justamente diante dos deputados que exercem a função constitucional de fiscalizar o Poder Executivo?
Ao mencionar temas como propina, orçamento secreto, Emendas Pix e obras públicas, o secretário criou uma expectativa enorme na sociedade.
Mas expectativa não substitui esclarecimento.
Insinuação não substitui transparência.
A democracia funciona quando autoridades públicas apresentam fatos, documentos, argumentos e responsabilidades.
Não quando deixam frases pela metade.
O VLT explica o passado, mas não responde pelo atraso do BRT.
A referência feita pelo secretário aos trens do VLT parados durante aproximadamente dez anos não é irrelevante.
O VLT representa uma das maiores cicatrizes da história recente de Mato Grosso.
O projeto foi iniciado em 2012, durante o governo Silval Barbosa, como uma das principais obras de mobilidade urbana destinadas à Copa do Mundo de 2014. A promessa era entregar um moderno sistema de transporte ligando Cuiabá e Várzea Grande antes do Mundial.
A promessa não foi cumprida.
A Copa terminou.
Os trilhos ficaram inacabados.
As obras foram paralisadas.
Quando Pedro Taques assumiu o governo, em 2015, recebeu um empreendimento praticamente abandonado. Sua gestão realizou auditorias, buscou renegociar contratos e chegou a anunciar uma tentativa de retomada. Posteriormente, em dezembro de 2017, rescindiu o contrato com o consórcio responsável pelas obras, alegando descumprimento contratual.
Já no governo Mauro Mendes, a decisão foi outra.
Em dezembro de 2020, o Estado anunciou oficialmente que abandonaria definitivamente o VLT e substituiria o modal pelo BRT — sistema de ônibus em corredores exclusivos.
Essa escolha foi política, administrativa e técnica.
Foi uma decisão do governo Mauro Mendes.
Foi esse governo que afirmou que o BRT seria mais barato, mais rápido, mais eficiente e plenamente capaz de resolver o problema da mobilidade urbana.
Mas toda decisão política produz responsabilidades.
Ao abandonar o VLT e optar pelo BRT, o governo assumiu integralmente o compromisso de entregar uma solução melhor.
Por isso, quando o secretário Marcelo de Oliveira compareceu à Assembleia Legislativa, o objeto principal da convocação não era explicar por que o VLT fracassou.
A sociedade já conhece essa história.
O objetivo era explicar por que o BRT também não cumpriu aquilo que prometeu.
O cronograma inicial previa a conclusão da obra em outubro de 2024.
Outubro de 2024 chegou.
Passou.
E o BRT não foi entregue.
O prazo foi novamente alterado.
Houve dificuldades contratuais.
Parte dos contratos precisou ser rescindida.
Novos procedimentos passaram a ser adotados para concluir aquilo que originalmente deveria estar pronto.
É justamente aqui que surge uma pergunta inevitável.
Até que ponto olhar para um erro de dez anos atrás responde aos questionamentos sobre uma obra que está sendo executada hoje?
Comparar o presente com um fracasso anterior pode oferecer contexto histórico.
Mas não substitui respostas sobre cronograma.
Não explica os atrasos.
Não responde pelos aditivos.
Não esclarece o percentual real de execução.
Não informa quando o cidadão finalmente poderá utilizar o sistema.
Um erro do passado não elimina a responsabilidade do presente.
A convocação era sobre o BRT, não sobre o VLT
Outro aspecto merece atenção.
A Assembleia Legislativa não convocou o secretário para fazer uma retrospectiva histórica da mobilidade urbana de Mato Grosso.
A convocação tinha um objeto específico.
O BRT.
Os deputados queriam esclarecimentos sobre a execução da obra.
Sobre os contratos.
Sobre os custos.
Sobre os atrasos.
Sobre as estações.
Sobre as desapropriações.
Sobre os impactos no comércio.
Sobre os novos prazos.
Era disso que tratava a audiência.
Entretanto, parte significativa da manifestação do secretário voltou-se para um modal que o próprio governo decidiu abandonar há mais de cinco anos.
É uma estratégia política compreensível.
Ao lembrar o fracasso do VLT, desloca-se o foco para um problema herdado de administrações anteriores.
Mas essa comparação possui um limite.
O governo atual não responde mais pelo VLT.
Responde pelo BRT.
Foi ele quem escolheu trocar o modal.
Foi ele quem apresentou novos cronogramas.
Foi ele quem anunciou datas para entrega.
Logo, também é ele quem precisa explicar por que essas datas não foram cumpridas.
O silêncio que produz dúvidas
Talvez o momento mais intrigante da audiência tenha ocorrido quando o secretário afirmou:
"Tem coisa que eu quero falar. Eu quero falar, mas eu não vou falar."
Logo antes dessa frase, ele mencionou Emendas Pix.
Falou sobre orçamento secreto.
Disse que o dinheiro público precisa ser respeitado.
Fez referências a situações envolvendo recursos públicos.
Depois declarou que havia fatos que preferia não revelar.
Essa sequência produz um efeito inevitável.
O cidadão passa imediatamente a formular perguntas.
O que exatamente ele queria dizer?
Qual era a relação entre esses assuntos e a audiência do BRT?
Estava apenas fazendo uma crítica geral ao sistema político brasileiro?
Estava sugerindo que existiam interesses políticos por trás das cobranças?
Conhecia fatos relacionados ao uso de recursos públicos?
Se conhecia, por que não os apresentou?
Se não conhecia, por que utilizou expressões tão fortes justamente naquele momento?
Nenhuma dessas perguntas representa uma acusação.
Todas decorrem da própria construção do discurso.
Quem menciona temas como propina, Emendas Pix, orçamento secreto e respeito ao dinheiro público cria, naturalmente, uma expectativa de que apresentará fatos concretos.
Quando isso não acontece, sobra apenas a insinuação.
E insinuações são perigosas.
Elas ampliam suspeitas.
Geram interpretações.
Alimentam narrativas.
Mas não fortalecem a transparência.
A responsabilidade de quem ocupa um cargo público
É evidente que qualquer cidadão possui direitos constitucionais.
Mas quem aceita ocupar um cargo de secretário de Estado também assume deveres.
O principal deles talvez seja prestar contas dos atos da administração pública.
A Assembleia Legislativa não convocou engenheiros.
Não convocou assessores.
Não convocou advogados da secretaria.
Convocou o secretário.
Porque é ele quem responde politicamente pela condução da Secretaria de Infraestrutura.
Se havia informações relevantes envolvendo dinheiro público, aquele era justamente o ambiente institucional para apresentá-las.
Se havia denúncias, existem órgãos competentes para investigá-las.
Se havia irregularidades, elas deveriam ser formalizadas.
O que parece incompatível com a função pública é levantar temas gravíssimos, despertar a curiosidade da sociedade e, em seguida, afirmar que prefere não explicar aquilo que sabe.
No fim da audiência, a impressão deixada não foi apenas a de um secretário emocionado.
Foi a de uma oportunidade perdida.
Perdeu-se a oportunidade de esclarecer dúvidas.
De responder questionamentos.
De fortalecer a transparência.
De transformar suspeitas em informações.
A democracia não precisa de frases interrompidas.
Precisa de respostas completas.
Porque toda vez que uma autoridade pública afirma que conhece fatos importantes, diz que gostaria de revelá-los e escolhe permanecer em silêncio justamente diante do órgão responsável por fiscalizar seus atos, o silêncio deixa de ser apenas ausência de palavras.
Passa a ser uma mensagem política.
E mensagens políticas também precisam ser interpretadas.
Talvez a maior reflexão daquela audiência não esteja no que foi dito.
Mas exatamente naquilo que o próprio secretário reconheceu que poderia dizer e decidiu não dizer.




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